RECORDANDO
ALLAN KARDEC
O ESPIRITISMO E A
MAÇONARIA
(Eliseu Mota
Júnior)
A origem da Maçonaria remonta
aos povos mais antigos e vem acompanhando, dentro dos rigores da
sua tradição secreta e ritualista, cada passo da
civilização humana, nela influenciando sobretudo
através da presença dos maçons nas mais
diversas profissões.
Em um livro admirável sobre o
assunto, o nobre maçom Luiz Prado, depois de lembrar que a
trilogia Liberdade,
Igualdade e Fraternidade é a divisa imortal do
verdadeiro maçom, explica que a Maçonaria, na
“sua trajetória gloriosa, tomou as
denominações de ‘Ordem dos guardas da lei das
doze tábuas’, ‘Ordem dos Essênios’,
‘Ordem dos Templários’, ‘Ordem do
Cardo’, ‘Associação dos
Pedreiros-livres’ e outras mais. Prossegue dizendo que o
“reflexo da atual Maçonaria deve ter feito sentir-se
nos tempos de Moisés, na Palestina dos Romanos e no
Continente do Velho Mundo.”
No tocante ao significado vernacular, diz ele que o
“vocábulo — Maçonaria — derivou do
termo francês — maçon — que, traduzido
para o português, quer dizer — ‘pedreiro’.
Eis como se justifica o motivo dos maçons serem conhecidos
como ‘pedreiros-livres.”
A propósito, reina até
hoje no movimento espírita uma séria dúvida em
saber se Allan Kardec (ou Hippolyte Léon Denizard Rivail,
seu nome civil) teria ou não teria sido maçom.
Não que isso tenha importância capital para a Doutrina
Espírita, mas permitiria conhecer melhor a opinião de
Allan Kardec sobre a instituição
maçônica. Contudo, referida dúvida ainda
não pôde ser devidamente
esclarecida.
Com efeito, André Moreil,
conceituado biógrafo de Kardec, parece inclinado a responder
positivamente, escrevendo que “não se sabe em que loja
foi iniciado Denizard Rivail. Isto pouco importa. Os
princípios eram os mesmos. Eis a definição
ideológica da Maçonaria, segundo o Larousse do
século XIX:
‘A Maçonaria tem por fim
a melhoria moral e material do homem; por princípios, a lei
do progresso da Humanidade, as idéias filosóficas de
tolerância,
fraternidade, igualdade e
liberdade, abstração feita da fé
religiosa ou política, das nacionalidades e das
diferenças sociais.
‘O Espiritismo moral e social
iria dizer justamente a mesma coisa. Os princípios
filosóficos são absolutamente
idênticos:
a)
Existência de
Deus.
b)
Imortalidade da
alma.
c)
Solidariedade humana.”
Entretanto, depois de profunda
investigação e minuciosos estudos, Zêus
Wantuil, chegou à conclusão de que “... apenas
existiu, entre Rivail e a Maçonaria, afinidade de
princípios e ideais, sem jamais haver ele ingressado em loja
alguma. É certo que sempre viu com simpatia a
franco-Maçonaria, mas isto não implica nem prova
qualquer adesão oficial da parte
dele.”
Deixando de lado essa polêmica,
a verdade é que o Espiritismo e a Maçonaria têm
inegáveis pontos em comum, e juntos poderão acelerar
o progresso da Humanidade e o estabelecimento da justiça
social, sobretudo através da perfeição moral
dos espíritas e dos maçons.
Seguindo então o nosso objetivo
de pesquisar assuntos de interesse atual nas obras de Allan Kardec,
verificamos que na sessão da Sociedade Espírita de
Paris do dia 25 de fevereiro de 1864, várias
dissertações foram obtidas sobre o concurso que o Espiritismo poderia
encontrar na Franco-Maçonaria, que depois foram
publicadas na Revista
Espírita de Abril de 1864. Comunicaram-se naquela
oportunidade os Espíritos Guttemberg (Médium: Sr. Leymarie),
Jacques de Molé (Médium: Srta.
Bréguet) e o franco-maçom Vaucanson (Médium: Sr. D’Ambel). Vejamos a
seguir algumas considerações que extraímos
daquelas brilhantes comunicações, usando o
método de perguntas e respostas:
P. Qual a importância social da
Maçonaria?
R. “As
instituições maçônicas foram para a
sociedade um encaminhamento à felicidade. Numa época
em que toda idéia liberal era considerada um crime, os
homens necessitavam de uma força que, inteiramente submissa
às leis, não fosse menos emancipada por suas
crenças, por suas instituições e pela unidade
de seu ensino. Nessa época a religião ainda era,
não mãe consoladora, mas força
despótica que, pela voz de seus ministros, ordenava, feria,
fazia tudo curvar-se à sua vontade; era um assunto de pavor
para quem quisesse, como livre pensador, agir e dar aos homens
sofredores alguma coragem e ao infeliz, algum consolo moral. Unidos
pelo coração, pela fortuna e pela caridade, nossos
templos foram os únicos altares onde não se havia
desconhecido o verdadeiro Deus, onde o homem ainda podia dizer-se
homem, onde a criança podia esperar encontrar, mais tarde,
um protetor, e o abandonado,
amigos.”
P. Existe alguma afinidade entre a
Maçonaria e o Espiritismo?
R. “Que é o que se pede a
todo maçom iniciado? Crer na imortalidade da alma, no Divino
Arquiteto, ser benfeitor, devotado, sociável, digno e
humilde. Ali pratica a igualdade na mais larga escala. Há,
pois, nessas sociedades uma afinidade com o Espiritismo de tal modo
evidente que salta aos olhos.”
P. E os maçons conhecem o
Espiritismo?
R. “A questão do
Espiritismo foi posta em ordem do dia em várias lojas e eis
o resultado: leram volumosos relatórios muito confusos a
este respeito, mas não o estudaram a fundo, o que fez que
nisto, como em muitas outras coisas, discutissem matéria que
não conheciam, julgando por ouvir dizer, mais do que pela
realidade. Contudo muitos maçons são espíritas
e trabalham muito na propaganda desta crença. Todos escutam,
e se o hábito diz não, a razão diz
sim.”
P. A Maçonaria já aceita
as idéias espíritas?
R. “O Espiritismo é uma
irresistível corrente de idéias, que deve ganhar todo
o mundo. É questão de tempo. Ora, seria desconhecer o
caráter da instituição maçônica,
crer que esta concorde em se anular, representar um papel negativo
em meio ao movimento que impele a Humanidade para a frente; crer
que ela apague o facho, como se temesse a luz. Esperai,
então. Porque o tempo é um recrutador sem igual; por
ele as impressões se modificam e, necessariamente, no vasto
campo dos estados abertos nas lojas, o estudo espírita
entrará como complemento, porque isto já está
no ar. Riram, falaram; não riem mais:
meditam.
“Assim, então, tereis uma
pepineira espírita nessas sociedades essencialmente
liberais. Por elas entrareis plenamente neste segundo
período, que deve preparar as vias prometidas. Os homens
inteligentes da Maçonaria vos bendirão por sua vez;
pois a moral dos Espíritos dará um corpo a essa seita
tão comprometida, tão temida, mas que tem feito mais
bem do que se pensa.”
P. Como e quando isto
acontecerá?
R. “Tudo tem um parto laborioso,
uma afinidade misteriosa; e se isto existe para o que perturba as
camadas sociais, é muito mais verdadeiro para o que conduz o
progresso moral dos povos. Ainda alguns dias, e o Espiritismo
terá transposto o muro que separa a maioria das paredes do
templo dos segredos; e, nesse dia, a sociedade verá
florescer no seu seio a mais bela flor espírita que,
deixando suas pétalas caírem, dará uma semente
regeneradora da verdadeira liberdade. Agora, glória ao
Grande Arquiteto!”
—
o —
(coluna originalmente publicada na Revista
Espírita do Espiritsmo, Fevereiro de
1998)
PRADO, Luiz. Ao pé das colunas. Rio,
Ed. Mandarino, 3ª ed., pp. 13 ss.
MOREIL,
André. Vida e obra
de Allan Kardec. SP, Edicel, 1986, Trad.
Miguel Maillet p.
41.
WANTUIL, Zêus, et alii. Allan Kardec.
(Meticulosa Pesquisa Biobibliográfica.), Rio, FEB,
1979, Volume I, p. 161.